O projeto de lei de mineração revisado, proposto pelo Instituto Nacional de Minas de Moçambique (INAMI), marca uma mudança crucial na governança dos recursos. Em sua essência, reside a determinação de canalizar 10% das receitas da mineração para o desenvolvimento provincial, distrital e comunitário nas zonas de extração. Essa medida responde a antigas demandas por repartição equitativa de benefícios, mas tem gerado um debate acirrado.

Fátima Mimbire, da ONG N’weti, argumenta que 10% é o mínimo, defendendo, em vez disso, uma redistribuição dividida em 50% e 70%, com 40% para as províncias e 20% para os distritos, a fim de refletir o princípio do imposto real, que garante às comunidades participações legítimas em seus recursos.

No entanto, os críticos alertam que a repartição de receitas por si só não garante o desenvolvimento equitativo. Mimbire enfatiza que a representação da comunidade nos comitês de gestão de fundos é essencial para evitar o uso indevido por elites locais.

O silêncio do projeto de lei sobre mecanismos específicos de governança continua sendo uma lacuna, embora suas disposições contra lavagem de dinheiro sinalizem objetivos de transparência mais amplos. Sem uma responsabilização executável, mesmo percentuais maiores correm o risco de perpetuar desigualdades históricas.

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Além da partilha de receitas, o projeto de lei propõe a divisão do INAMI em duas entidades: uma agência de promoção mineira para atrair investimentos e uma autoridade reguladora mineira para licenciamento e supervisão.

Isso visa simplificar a burocracia e resolver conflitos de interesse. No entanto, o especialista jurídico Rodrigo Rocha alerta que mandatos pouco claros podem criar sobreposição institucional, prejudicando a eficiência, citando que o sucesso depende de estruturas operacionais precisas.

Enquanto isso, as reformas se alinham com o plano quinquenal do país e a Estratégia Nacional de Desenvolvimento, priorizando o processamento mineral nacional com uma nova meta de 30% dos minerais processados localmente até 2030 para impulsionar a industrialização.

Além disso, requisitos de conteúdo local aprimorados para que mineradores estrangeiros estabeleçam parcerias com empresas moçambicanas e priorizem as compras locais.

À medida que Moçambique se posiciona como um polo crítico de minerais, este projeto de lei representa um passo sutil, ainda que contestado, em direção à soberania dos recursos. A consulta pública em andamento oferece uma oportunidade para abordar lacunas, particularmente nos mecanismos de responsabilização.

Se implementadas de forma coesa, essas reformas podem transformar a mineração de um empreendimento extrativo em um catalisador para o desenvolvimento inclusivo.

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