Diante de tarifas, restrições à imigração, redução do financiamento para o desenvolvimento e crescente nacionalismo, o senso comum sugere que a África enfrenta fortes ventos contrários geopolíticos. No entanto, a aparente desordem pode ter um lado positivo significativo para o continente.

Essa conclusão surgiu de um debate acalorado no palco principal do segundo dia do Investing in African Mining Indaba, o maior evento de mineração do gênero, que está sendo realizado na Cidade do Cabo.

O formato inovador do debate apresentou duas equipes de líderes de opinião do setor de mineração oferecendo visões opostas sobre a situação geopolítica. A sessão descontraída destacou muitas das principais questões que o setor enfrenta, sujeitas a uma “regra política”, na qual nenhum dos lados necessariamente acreditava no que dizia – ou sequer pensava – durante a sessão.

Apesar do tom descontraído, houve um consenso claro de que a África estava em uma posição privilegiada para se beneficiar de sua rica dotação de minerais críticos na nova era dos recursos naturais. O único ponto de discordância era se o continente seria capaz de aproveitar essas oportunidades, alcançando a governança eficaz e a integração regional necessárias.

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“A África é uma vencedora na atual crise geopolítica?” foi a pergunta feita ao painel, no debate moderado por Rohitesh Dhawan, presidente e CEO do Conselho Internacional de Mineração e Metais.

Jogada de poder

“Esperança não é estratégia”, ironizou Ronak Gopaldas, diretor da Signal Risk e pesquisador visitante da London School of Economics. “A África aspira ser uma vencedora, mas, na realidade, o continente é mais vulnerável do que um certo CEO em um show do Coldplay!”

Gopaldas observou, com humor, que o mundo estava reentrando em uma era de política de poder, onde a influência, assim como o poderio econômico e militar, seriam primordiais. Continuando com o tema musical, ele disse que hoje em dia, “Todo mundo quer dominar o mundo”, como diria a clássica canção pop dos anos 80.

“Nesse ambiente, nós, africanos, seremos acatadores em vez de criadores de regras”, afirmou. “Não podemos simplesmente ‘viver de esperança’. Sem negociação coletiva e solidariedade regional, estaremos retrocedendo.”

Adotando uma postura mais positiva para o evento, Mpumi Zikalala, CEO da Kumba Iron Ore, apontou para a inegável realidade de que a África possui os recursos que todos desejam.

Benefícios da juventude

“A África tem uma riqueza da qual todos querem uma parte”, disse ela. “Temos cerca de 40% das reservas comprovadas de minerais críticos do mundo no subsolo. Não há como discutir isso. O mundo está vindo em nossa direção, e só precisamos negociar acordos que sejam vantajosos para nós.”

Zikalala também destacou o enorme dividendo da juventude africana. Lembrando a plateia de que o continente tem a população mais jovem do planeta e, embora as habilidades ainda não estejam presentes, seria fácil treinar os jovens para atender às necessidades de desenvolvimento do continente.

“Nossos jovens nos permitirão desbloquear as possibilidades para o futuro”, disse Zikalala. “Haverá demanda de longo prazo por minerais críticos. E os jovens podem ser treinados para atender a essa demanda.”

O terceiro G: governança

Quebrando o clima de Zikalala – com um toque de ironia – estava Gracelin Baskaran, diretora de segurança de minerais críticos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

“Os três pilares, o ‘G’ e o ‘G’, precisam estar presentes”, disse ela. “Não se trata apenas das condições geopolíticas ou da riqueza geológica. É preciso que a governança funcione corretamente!”

Ela mencionou vários territórios africanos que viram menos projetos de exploração global devido a problemas como nacionalismo de recursos, dupla tributação e percepções de instabilidade.

Baskaran também destacou a necessidade de os países africanos se integrarem para um desenvolvimento mais eficiente.

“Todos falam sobre beneficiamento local”, disse ela. “Mas nem todos os países podem construir uma refinaria. Faz mais sentido construir uma refinaria para atender a uma região mais ampla. O alinhamento de políticas torna isso possível – e a África precisa trabalhar nisso.”

A batalha pelos minerais

Também do lado dos otimistas estava o presidente e CEO da Techmet, Brian Menell, que descreveu a atual situação geopolítica como semelhante à Guerra Fria, mas com foco em minerais.

“A principal frente hoje em dia é o controle dos recursos”, observou Menell. “O mundo precisa de mais do que nós temos – para a transição energética, robótica, drones, direção autônoma… Também precisa de uma população jovem e resiliente, e, portanto, seremos vencedores.”

 

Menell adotou um tom positivo de inevitabilidade, enquanto o debate se encaminhava para um final amigável.

“Fundamentalmente, trata-se de investimento e retorno”, disse ele. “Os EUA, a Europa, o Japão e outros investidores se comprometeram a fornecer capital, reduzir os riscos dos investimentos e transformar as cadeias de suprimentos globais. Sem sombra de dúvida, isso garante a posição da África como vencedora.”

“A África pode ser uma vencedora”, admitiu Baskaran, com um sorriso. “Contanto que construamos coerência política.”

Para finalizar, Dhawan resumiu o clima na sala e na conferência Mining Indaba.

“Apimentamos as coisas para fins de entretenimento, mas, no fim das contas, mesmo em tempos de turbulência geopolítica, ainda existem oportunidades interessantes para a África”, disse ele.

  • O Investing in African Mining Indaba 2026 acontece de 9 a 12 de fevereiro no CITCC, na Cidade do Cabo.
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