Numa mudança significativa rumo à autossuficiência energética, o governo moçambicano está prestes a assumir o controlo direto do fornecimento de eletricidade à enorme fundição de alumínio da Mozal, sinalizando o fim da sua dependência de décadas da Eskom, da África do Sul. Esta mudança estratégica, anunciada na terça-feira, é uma declaração clara de intenções para priorizar os interesses nacionais e aumentar a capacidade da empresa pública Eletricidade de Moçambique (EDM).
O Conselho de Ministros, reunido na Beira, afirmou que o fornecimento de energia à crucial fundição da Mozal permanece seguro. No entanto, a mensagem contundente do porta-voz do governo, Inocêncio Impissa, foi inequívoca: a EDM deve tornar-se a única garante deste fornecimento.
“É do nosso interesse que a Mozal continue a ter energia suficiente. Por nosso interesse, refiro-me ao interesse do governo”, afirmou Impissa, sublinhando o profundo compromisso com a fundição, um pilar da economia exportadora de Moçambique. “É também do interesse do governo que a EDM se torne a fornecedora de energia.”
Atualmente, o acordo prevê que a Eskom, da África do Sul, forneça eletricidade à Mozal, localizada nos arredores de Maputo. Este tem sido um ciclo curioso, visto que a própria Eskom adquire uma parcela significativa – 66% em 2024 – da sua energia da central hidroelétrica de Cahora Bassa (HCB), de Moçambique. O governo moçambicano pretende agora desfazer esta dinâmica de longa data.
“Hoje, celebramos o contrato diretamente e queremos apresentar o ‘player’, que é a EDM, a entidade responsável pela comercialização da energia produzida pela nossa central hidroelétrica [em Cahora Bassa – HCB]”, explicou Impissa, insinuando as complexas negociações que se avizinham. “Precisamos finalizar alguns detalhes para este fim.”
Uma Repatriação Estratégica de Energia
A transição da Eskom como fornecedora direta da Mozal faz parte de um plano mais amplo e ambicioso para “repatriar” a eletricidade gerada pela HCB para uso doméstico. Essa ambição de longa data foi confirmada pelo Presidente Daniel Chapo em 23 de junho, que articulou uma visão para Moçambique assumir o controle total de sua geração de energia.
O contrato existente para o fornecimento de eletricidade da HCB à Eskom, uma relíquia que remonta a 1979, expira em 2030. Esta data é central para a Estratégia de Transição Energética de Moçambique até 2050, que visa explicitamente trazer de volta os 8 a 10 terawatts-hora atualmente exportados para a África do Sul.
A HCB, com uma capacidade instalada de 2.075 megawatts, é a usina elétrica mais importante de Moçambique, e o Estado moçambicano detém uma participação majoritária. Durante décadas, a usina exportou principalmente sua eletricidade barata e limpa para a Eskom, com uma parcela menor destinada à EDM. O prazo final de 2030 para o Contrato de Compra de Energia entre a HCB e a Eskom exige decisões cruciais.
O Papel Crítico da Mozal e a Segurança Futura
A Mozal, uma enorme fundição de alumínio nos arredores de Maputo, é uma das maiores consumidoras de eletricidade de Moçambique, consumindo substanciais 900 megawatts. O seu atual contrato de fornecimento com a Eskom expira em 2026, preparando o terreno para a mudança proposta para a EDM.
“Uma transição do atual fornecedor de energia é necessária para que a EDM possa assumir o braço comercial do negócio, que envolve um dos maiores exportadores de Moçambique”, esclareceu Impissa, enfatizando a importância económica da fundição.
O porta-voz do governo também sublinhou que garantir as necessidades energéticas da Mozal é primordial, indo além dos interesses diretos da fundição para servir os interesses mais amplos de todos os moçambicanos. “Ela emprega moçambicanos, há impostos que entram no orçamento moçambicano e há vantagens em ter a Mozal lá”, disse.
Detida em 63,7% pela South32, com sede em Perth, a Corporação de Desenvolvimento Industrial da África do Sul detém 32,4% e o governo moçambicano uma participação de 3,9%, a Mozal contribui significativamente para a economia nacional. A determinação do governo em garantir o fornecimento contínuo de energia destaca seu compromisso em promover um ambiente estável e previsível para as principais indústrias.
À medida que Moçambique traça seu caminho rumo a uma maior independência energética, a iniciativa de colocar o fornecimento de energia da Mozal sob controle local representa um passo crucial na redefinição do cenário energético do país e na afirmação de sua soberania sobre seus ricos recursos naturais. Os próximos anos serão, sem dúvida, marcados por negociações complexas e realinhamentos estratégicos, à medida que Moçambique busca consolidar o papel da EDM como a força motriz do seu desenvolvimento nacional.






















